O ar do seu carro pode estar piorando o seu inverno: o que diz o boletim da Fiocruz

O ar que circula dentro do seu veículo pode conter até 10 mil fungos e bactérias, segundo análise da Faculdade de Biomedicina da Devry Metrocamp, em Campinas.
O ar do seu carro pode estar piorando o seu inverno: o que diz o boletim da Fiocruz

O ar que circula dentro do seu veículo pode conter até 10 mil fungos e bactérias, segundo análise da Faculdade de Biomedicina da Devry Metrocamp, em Campinas. No inverno, quando mantemos os vidros fechados e o ar-condicionado ligado por mais tempo, essa concentração de microrganismos se torna um problema concreto de saúde — especialmente para crianças, idosos e alérgicos.
O dado ganha urgência quando cruzado com o último boletim InfoGripe da Fiocruz: o Brasil já registrou 31.768 casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) em 2026, com 18 estados e o Distrito Federal em situação de alerta, risco ou alto risco (Agência Brasil, abril de 2026).

Por que o inverno piora a qualidade do ar dentro do carro?

Durante os meses frios, três fatores convergem para transformar o interior do veículo em ambiente propício a problemas respiratórios.
O primeiro é o tempo de exposição. Com temperaturas mais baixas, motoristas e passageiros tendem a manter vidros fechados e o ar-condicionado no modo recirculação. Isso reduz a troca de ar com o ambiente externo e aumenta a concentração de partículas em suspensão dentro da cabine.
O segundo fator é a umidade retida no sistema de climatização. O evaporador do ar- condicionado acumula condensação a cada uso. Sem manutenção adequada, essa umidade favorece a proliferação de fungos, ácaros e bactérias nos dutos e no filtro de cabine.
O terceiro é a própria sazonalidade viral. Segundo o InfoGripe da Fiocruz, o rinovírus responde por 42,9% dos casos positivos de SRAG, seguido pela influenza A com 24,5%, o vírus sincicial respiratório com 15,3% e a covid-19 com 11,1% (Agência Brasil, abril de 2026). Esses vírus circulam com mais intensidade no inverno, e ambientes fechados — incluindo o interior do carro — facilitam a transmissão.

O que vive dentro do ar-condicionado do seu carro?
Uma pesquisa publicada na Revista Ouricuri, da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), analisou a microbiota fúngica em sistemas de ar-condicionado de automóveis e encontrou gêneros como Aspergillus, Penicillium, Candida e Fonsecaea — todos associados a infecções respiratórias e reações alérgicas.
Outro estudo, conduzido pela Faculdade de Biomedicina da Devry Metrocamp, identificou bactérias como Bacillus sp, Staphylococcus sp e Pseudomonas sp em filtros de ar-condicionado automotivo. Em números absolutos, a análise contabilizou até 10 mil microrganismos em um único veículo.
O filtro de cabine, quando saturado, deixa de reter essas partículas e passa a redistribuí-las pelo habitáculo. Segundo a Valeo, fabricante de componentes automotivos, os sinais mais comuns de contaminação incluem espirros ao entrar no carro com o ar ligado, olhos lacrimejando sem motivo aparente e odor de mofo ao ligar o sistema.

Como isso afeta a saúde de quem usa o veículo diariamente
O impacto não se limita a desconforto. A exposição prolongada a fungos como Aspergillus pode desencadear crises de asma, rinite alérgica e, em casos extremos, infecções pulmonares em pessoas imunossuprimidas. Bactérias do gênero Staphylococcus estão associadas a infecções de pele e mucosas. A Pseudomonas sp, também identificada nos estudos da Devry Metrocamp, é reconhecida por causar infecções oportunistas em vias aéreas superiores.
Os sintomas mais comuns de exposição contínua incluem espirros recorrentes ao entrar no veículo, congestão nasal persistente, olhos lacrimejando sem causa aparente e sensação de garganta irritada durante ou após o deslocamento. Muitas pessoas atribuem esses sintomas ao clima frio ou à poluição urbana sem considerar que a fonte pode estar dentro do próprio carro.
Para quem faz deslocamentos diários de 30 minutos ou mais — a média do paulistano, segundo pesquisa Origem-Destino do Metrô de São Paulo —, o tempo de exposição acumulado ao longo de uma semana equivale a mais de cinco horas respirando ar potencialmente contaminado. Em famílias que usam o carro para levar filhos à escola e depois seguir ao trabalho, o tempo de exposição diário pode ultrapassar uma hora.
Crianças em idade escolar e idosos com doenças respiratórias crônicas são os mais vulneráveis. A Fiocruz classifica crianças de 6 meses a 6 anos, idosos e gestantes como
grupos prioritários para vacinação contra influenza justamente por essa fragilidade — o que reforça a importância de manter o ar do veículo livre de contaminantes para essas populações.

O que fazer na prática
A boa notícia é que os riscos são evitáveis com manutenção preventiva. Três ações fazem diferença concreta:
Trocar o filtro de cabine a cada 10 mil quilômetros ou 12 meses — o que vier primeiro.
Filtros saturados não apenas deixam de filtrar, como se tornam fonte ativa de contaminação, liberando de volta as partículas retidas ao longo dos meses. Verifique no manual do proprietário a localização e o modelo do filtro compatível com o seu veículo.
Fazer a higienização interna do veículo — o processo elimina fungos, bactérias e ácaros acumulados em bancos, carpetes, forros e dutos do ar-condicionado. A DryWash, rede de estética automotiva fundada em 1994 e uma das primeiras a oferecer lavagem a seco automotiva no Brasil, utiliza produtos bactericidas que atuam diretamente na eliminação desses microrganismos.
Investir na purificação de ar do veículo — a oxi-sanitização com ozônio destrói vírus, fungos e bactérias nos dutos do ar-condicionado e no habitáculo. O processo é complementar à higienização interna e indicado especialmente no início do inverno.

Quando procurar ajuda profissional
Nem todo cuidado pode ser feito em casa. Procure um serviço especializado quando perceber qualquer um destes sinais:

• Cheiro de mofo ou bolor ao ligar o ar-condicionado
• Espirros recorrentes ou irritação nos olhos dentro do veículo
• Manchas escuras visíveis nas saídas de ar
• Mais de 12 meses sem higienização interna
• Veículo usado por crianças pequenas, gestantes ou idosos com frequência

A recomendação é fazer a higienização interna a cada seis meses ou duas vezes ao ano — especialmente antes do inverno e antes do verão, quando o uso do ar-condicionado se intensifica.

Perguntas frequentes

Com que frequência devo higienizar o ar-condicionado do carro?
A recomendação técnica é a cada seis meses ou 10 mil quilômetros. No inverno, quando o uso em modo recirculação aumenta, o ideal é fazer a higienização logo no início da estação.

Trocar o filtro de cabine resolve o problema de mau cheiro?
Nem sempre. O filtro retém partículas, mas se a contaminação já atingiu o evaporador e os dutos, apenas a troca do filtro não elimina a fonte do odor. É necessário higienizar o sistema completo.

O ar-condicionado do carro pode transmitir gripe?
O ar-condicionado em si não transmite vírus, mas o ambiente fechado com recirculação de ar facilita a permanência de gotículas respiratórias no habitáculo. Manter o filtro limpo e alternar entre recirculação e ar externo reduz o risco.

Qual a diferença entre higienização interna e purificação de ar?
A higienização interna limpa superfícies como bancos, carpetes e forros, eliminando fungos e bactérias por contato. A purificação de ar (oxi-sanitização) atua nos dutos e no habitáculo por meio de ozônio gasoso, alcançando áreas que a limpeza manual não atinge. Os dois processos são complementares.

Crianças podem ficar no carro durante a higienização?
Não. Os produtos utilizados na higienização e na oxi-sanitização exigem que o veículo fique desocupado durante o processo e por pelo menos 30 minutos após a conclusão